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18 de maio de 2018

UTILIZAR A LÍNGUA CULTA NAS REDAÇÕES


Olá, pessoal! Chegou de novo a sexta-feira e, novamente, cá estamos nós falando sobre a prova de redação do Enem, a tão temida produção textual que não deve ser tão temida assim, já que todos são capazes de ser leitores e autores proficientes não só em um exame como na vida acadêmica, profissional e social.
Abordamos bastante a questão da argumentação, já que o Enem objetiva que o candidato escreva uma dissertação – argumentativa: demos dicas de técnicas para elaborar a tese e desenvolver argumentos, explanamos que outros textos, outros gêneros, podem e devem ser lidos e escritos para ajudar a refletir sobre a argumentação, explicamos o que são e como devem ser utilizadas as estratégias argumentativas etc., mas nada disso funciona adequadamente se a redação não estiver escrita de acordo com a norma culta da língua escrita, nosso tema de hoje.
A demonstração do domínio da norma culta da Língua Portuguesa escrita é a primeira competência avaliada pelo Enem e talvez alguns devem pensar que é redundante a palavra “escrita” neste caso, mas não é, já que a língua e a linguagem se dão em duas modalidades: oral e escrita e como o gênero textual requerido no Enem é a dissertação – argumentativa, o candidato deve demonstrar que domina a norma culta da língua escrita, já que gêneros da modalidade oral (assim como alguns da modalidade escrita como comentários, por exemplo) podem ser formais ou informais, dependendo da situação de produção na qual estão inseridos (para exemplificar, um discurso de apresentação é formal, já um podcast pode ser informal). A situação de produção que o Enem estabelece é formal, pois é um exame oficial de seleção e como ele requer do candidato um texto formal escrito, este deve ser redigido segundo a normal culta da Língua Portuguesa.
Já que deve-se idealizar, imaginar um leitor universal, não deve-se, consequentemente, pressupor que este leitor conheça a proposta e o tema da redação (e isso vale para todos os vestibulares e para diversos gêneros), ou seja, como não se deve pensar no corretor no momento de escrever o texto, este deve ser construído com frases e orações que contenham informações completas, a fim de elaborar um texto autônomo, isto é, um texto que possa ser entendido por qualquer pessoa e fora da situação do vestibular ou do Enem; por exemplo, um texto que um parente ou amigo do candidato que não conhece a proposta possa ler e compreender normalmente e adequadamente, no qual o autor se fez entender.
O candidato deve almejar escrever do modo mais claro e objetivo possível, mas tendo o cuidado de não ser simplista. Como diria Albert Einstein:
Faça tudo da forma mais simples possível, mas não de forma simplista.
Ou seja, não é preciso escrever um texto todo rebuscado, com palavras difíceis e poucos conhecidas (claro que um vocabulário variado é o ideal, mas é mais seguro usar palavras que você conheça bem do que palavras que você não domina o significado totalmente), mas é fundamental redigir um texto claro, objetivo e com progressão temática, isto é, que leve o leitor para algum lugar, o lugar que o autor escolheu e não ficar “enrolando”.
Além da escolha lexical, a pontuação também é importante, pois além de organizar as ideias, os argumentos, os exemplos, as estratégias argumentativas, a proposta de intervenção social (quinta competência do Enem), ela dita o ritmo de leitura do leitor, a entoação desejada pelo autor. Um uso equivocado da vírgula, por exemplo, pode alterar completamente o sentido de uma oração, de uma frase, de toda uma construção. É como mostrou uma peça divulgada pela Associação Brasileira de Imprensa veiculada na mídia em comemoração aos seus 100 anos de existência:



14 de maio de 2018

REDUNDÂNCIA


Existem construções redundantes (ou pleonasmos) bastante claros no idioma, sobre os quais as recomendações e avisos são frequentes. Entre eles, temos “sair para fora”, “entrar para dentro”, “subir para cima”, “descer para baixo” e mais uns tantos que, de tanta recomendação, já se tornaram pouco frequentes (para felicidade dos gramáticos).
Há, porém, alguns mais sutis, menos ‘gritantes’ ou menos óbvios, que podem escapar mesmo ao redator atento, pois dependem, por exemplo, de um conhecimento de mundo mais específico. Entre estes encontramos ‘general do Exército’ (é preciso saber como se compõe a hierarquia militar das três Forças, para saber que o equivalente na Marinha é almirante e na Aeronáutica é brigadeiro) ou ainda ‘outra alternativa’, já que a origem da redundância está no radical latino ‘alter’ que significa ‘outro(a)’.
Mas o caso a que se refere o título do artigo de hoje é o da repetição desnecessária de conjunções. Algumas vezes o emissor, por distração, com intenção de reforçar uma ideia ou por desconhecimento do real valor semântico de determinadas conjunções, acaba usando-as redundantemente.
Aparecem, tanto na fala, como na escrita, as sequências “se caso” ou “mas porém” com certa frequência, tolerável numa conversa informal, entre falantes com pouco domínio da norma, na qual a comunicação de ideias seja o mais importante, mas grave nos textos formais e, principalmente, nas redações.
Rita Lee, na música “Saúde”, cria uma sequência de palavras que indicam oposição de ideias (o termo ‘apesar’ faz parte da locução conjuntiva ‘apesar de que” com valor concessivo e as palavras seguintes são conjunções adversativas) para reforçar a ideia de que tudo está bem, mesmo com fatores adversos. Esse é um emprego intencional, em que a compositora lança mão da licença poética para fazer as repetições:
(…) Como vai? Tudo bem
Apesar, contudo, todavia, mas, porém
As águas vão rolar
Não vou chorar (…)
Já o caso do ‘se caso’ parece que se fundamenta numa confusão de sonoridade. Lupicínio Rodrigues emprega corretamente a conjunção ‘se’, na canção abaixo:
Se acaso você chegasse
No meu “chateau” e encontrasse aquela mulher
Que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já te abandonou (…)”
Nos versos acima, o compositor empregou o advérbio de dúvida “acaso”, o qual por acaso, soa semelhante à conjunção condicional ‘caso’.
Esse emprego pode ser a origem do uso equivocado da sequência de condicionais ‘se caso’. A questão é que essas duas conjunções, além de formarem um pleonasmo quando empregadas juntas, pedem cada qual um verbo conjugado em tempos diferentes. Com a conjunção ‘se’, o verbo deve estar no futuro do subjuntivo:
  • Se eu fizer uma boa redação, aumentarei minhas chances de ser aprovado.
  • Caso eu faça uma boa redação, aumentarei minhas chances de ser aprovado.
Desse modo, além da questão da redundância, teremos também uma incompatibilidade entre a conjunção e a forma verbal, se as duas forem empregadas na sequência.
Daí… “se caso, não fico solteira” – onde ‘caso’ é o verbo ‘casar’ no presente, é a única maneira de empregar essas duas palavras numa mesma frase.

10 de maio de 2018

UMA BOA LEITURA ANTES DE ESCREVER UM EXCELENTE TEXTO

O gênero textual exigido na prova de redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) é a dissertação – argumentativa, na qual não basta, apenas, dissertar, expor, apresentar fatos, ideias, exemplos, citações, dados etc.; o fundamental é opinar acerca das questões expostas, embasado em argumentos consistentes, fortes, que não são rebatidos facilmente e que tenham como objetivo tentar (e se conseguir melhor ainda) convencer o leitor em relação ao que foi posto.
Para chegar a esse ponto, é essencial que o participante do Enem conheça e saiba utilizar estratégias argumentativas, algo que é abordado durante toda a passagem pela escola devido a sua importância, inclusive social e pública, já que linguagem e compreensão são dialógicas, nas quais, a todo momento, estamos respondendo ativamente ao que lemos, ao que ouvimos, ao que vemos e sempre entramos em embates ideológicos, pois a língua é ideológica e nunca será neutra.
Assim, sempre pensamos algo sobre tudo, já que sempre temos uma opinião sobre tudo; podemos até ser metamorfoses ambulantes como dizia Raul Seixas, podemos mudar de ideia, mas sempre a temos acerca de todo e qualquer assunto, tema, pessoa - neste exato momento você, leitor, está pensando algo sobre este texto e sobre a autora; você pode estar gostando ou não, concordando ou não, achando chato, interessante, instrutivo, repetitivo dentre tantas outras coisas-.
Portanto, em todas as relações sociais que temos - pessoais, profissionais, acadêmicas -  a nossa opinião é essencial e requerida e não poderia deixar de ser diferente em um exame como o Enem, até porque através de toda a prova a instituição traça o perfil do candidato almejado e toda faculdade e universidade deseja, sem dúvida, alunos que tenham o que dizer e que sustentem esse dizer em argumentos consistentes.
Mas como desenvolver bons argumentos? Escrever apenas dissertações – argumentativas já é o suficiente? A resposta para esta segunda pergunta é “não“, já que há outros gêneros textuais que são da ordem do argumentar e, conhecê-los, com certeza ajuda e muito no momento de planejar e escrever o gênero textual pedido no Enem, já que a dissertação – argumentativa não é a única que traz opiniões e argumentos.
Onde há discussão sobre problemas sociais - normalmente controversos -há argumentação e, junto a ela, está a refutação -contestação-, sustentação e a negociação de tomadas de posição, ou seja, toda uma estratégia argumentativa que compõe a ordem do argumentar - quando falamos em argumentar falamos em opinar baseado em argumentos, já que opinar sem argumentar de nada vale, no Enem e na vida, pois entrar em um debate sem argumentos é praticamente um suicídio-.
Gêneros escritos como artigos de opinião, editoriais, cartas do leitor e resenhas críticas e orais como debates -principalmente neste ano, já que haverá eleições-, entrevistas, palestras, discursos são alguns dos exemplos de textos que possuem, em sua essência, o argumentar.
Em um artigo de opinião, por exemplo, o articulista defende seu ponto de vista sobre determinado assunto, normalmente atual e relevante, relacionando-o com seus conhecimentos de mundo; a diferença entre este gênero e a dissertação – argumentativa é que esta é escrita de modo impessoal e o artigo opinativo pode ser escrito na 1ª pessoa do singular, já que trata-se da opinião de uma determinada pessoa, a qual o leitor se interessa em ler porque concorda ou até discorda dela e, assim, tem o costume de ler para refutar as colocações.
Já o editorial é um texto também opinativo, mas de autoria institucional, ou seja, é a opinião de um determinado veículo de comunicação -jornal escrito, revista e jornal televisionado, já que os âncoras podem emitir suas opiniões, que refletem os pensamentos da emissora, sobre os assuntos-.
Cartas do leitor (seja para denunciar ou reclamar algo, elogiar, discordar, questionar etc.) são essencialmente argumentativas, já que nenhum leitor escreve para um jornal ou revista por lazer, para passar o tempo e sim por alguma motivação e para dialogar e expor sua opinião para o veículo de comunicação -destinatário- e para os demais leitores.
Uma resenha crítica é um texto sobre um livro, um filme, uma exposição, um programa de TV, rádio etc. que expressa uma opinião sobre seu objeto de análise e é escrita por críticos, profissionais especializados que argumentam contra ou a favor e, assim, expõem o que pensam.
Assim, ao lermos e analisarmos estes textos .Quais estratégias argumentativas o articulista utilizou para refutar aquela afirmação? Como o editorial opina de forma impessoal, já que sua autoria é institucional? - como o leitor constrói sua carta a fim de reclamar de um problema em seu bairro ou para contestar uma reportagem de um jornal? De que maneira o crítico tenta convencer o leitor de que este livro não vale a pena ser lido? em seus meios de publicação podemos refletir sobre como a argumentação foi estruturada, de que forma ela progride (não se esqueçam da progressão temática) e como os textos são finalizados.
Mas não temos apenas os textos escritos; os gêneros orais como os debates são 100% argumentação, já que cada debatedor quer convencer o outro e o espectador de que ele, e apenas ele, está certo; seja em um programa de debates ou em um debate político, o objetivo central é o convencimento do outro.
Em entrevistas na televisão nos quais há mais de um entrevistador para somente um entrevistado, às vezes deixa de ser uma entrevista e passa a ser um verdadeiro debate, principalmente se o tema for polêmico como religião, política, políticas públicas -cotas, programas assistenciais -.
Já em palestras e discursos, também temos a exposição, a apresentação de diferentes formas de saber, mas, no fundo, a meta é também o convencimento de que aquele trabalho, aquela pesquisa é importante e tem resultados úteis, práticos e relevantes.
Nestes gêneros orais podemos analisar e refletir, por exemplo, por que um debatedor se sobressai, que artimanhas um bom entrevistador utiliza, como um entrevistado sai de uma saia justa ou como não sai, se os argumentos são do senso comum ou revelam algo inovador e lógico, de que ordem eles são -pessoal, científica, política, religiosa- e como são rebatidos pelo outro dentre outras questões.
Obviamente temos de separar muito bem suas estruturas composicionais e estilos da estrutura composicional e estilo da dissertação – argumentativa; este bom senso é fundamental, mas podemos concluir que conhecer, ler e escrever gêneros da ordem do argumentar só enriquecem nosso poder de argumentação, através da análise e da reflexão.
Não bastar ler, decodificar; para ter uma boa nota no Enem, devemos ter a cultura e o hábito da análise e da reflexão acerca de tudo o que lemos, vemos e ouvimos.

9 de maio de 2018

Tema de redação

Nos três textos abaixo, manifestam-se diferentes concepções de tempo; o autor de cada um deles expõe uma determinada relação com a passagem do tempo. Leia-os com atenção:

TEXTO 1

Mais do que nunca a história é atualmente revista ou inventada por gente que não deseja o passado real, mas somente um passado que sirva a seus objetivos. (…) Os negócios da humanidade são hoje conduzidos especialmente por tecnocratas, resolvedores de problemas, para quem a história é quase irrelevante; por isso, ela passou a ser mais importante para nosso entendimento do mundo do que anteriormente.
(Eric Hobsbawm, Tempos Interessantes: uma vida no século XX)

TEXTO 2

Não se afobe, não,
Que nada é pra já,
O amor não tem pressa,
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário,
Na posta-restante,
Milênios, milênios
No ar…

E quem sabe, então,
O Rio será
Alguma cidade submersa.
Os escafandristas virão
Explorar sua casa,
Seu quarto, suas coisas,
Sua alma, desvãos…

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras,
Fragmentos de cartas, poemas,
Mentiras, retratos,
Vestígios de estranha civilização.

Não se afobe, não,
Que nada é pra já,
Amores serão sempre amáveis.
Futuros amantes quiçá
Se amarão, sem saber,
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você.
(Chico Buarque, “Futuros Amantes”)

TEXTO 3

O que existe é o dia-a-dia. Ninguém vai me dizer que o que aconteceu no passado tem alguma coisa a ver com o presente, muito menos com o futuro. Tudo é hoje, tudo é já. Quem não se liga na velocidade moderna, quem não acompanha as mudanças, as descobertas, as conquistas de cada dia, fica parado no tempo, não entende nada do que está acontecendo.
(Herberto Linhares, depoimento)

Redija uma dissertação em prosa, na qual você irá apontar, sucintamente, as diferentes concepções do tempo, presentes nos três textos, e argumentar em favor da concepção do tempo com a qual você mais se identifica.

TEMA DE REDAÇÃO

Com o apoio dos três textos abaixo, escreva uma dissertação em prosa, na qual você deverá discutir manifestações concretas de afirmação ou de negação da auto-estima entre os brasileiros. Apresente argumentos que deem sustentação ao ponto de vista que você adotou.

TEXTO I

Está no Dicionário Houaiss:
auto-estima s.f. qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos.
A definição do dicionário parece limitar-se ao âmbito do indivíduo, mas a palavra auto-estima já há algum tempo é associada a uma necessidade coletiva. Por exemplo: nós, brasileiros, precisamos fortalecer nossa auto-estima. Nesse caso, a satisfação com nosso modo de ser, como povo, nos levaria à confiança em nossos atos e julgamentos. Mas talvez seja o caso de perguntar: não são nossos atos e julgamentos que acabam por fortalecer ou enfraquecer nossa auto-estima, como indivíduos ou como povo?

TEXTO II

Estão num poema de Drummond, da década de vinte, os versos:
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
(…)
Aqui ao menos a gente sabe que é tudo uma canalha só.

TEXTO III

Está num artigo do jornalista Zuenir Ventura, de anos atrás:
De um país em crise e cheio de mazelas, onde, segundo o IBGE, quase um quarto da população ganha R$ 4 por dia, o que se esperaria? Que fosse a morada de um povo infeliz, cético e pessimista, não?
Não. Por incrível que pareça, não. Os brasileiros não só consideram seu país um lugar bom e ótimo para viver, como estão otimistas em relação a seu futuro e acreditam que ele se transformará numa superpotência econômica em cinco anos. Pelo menos essa é a conclusão de um levantamento sobre a “utopia brasileira” realizado há pouco pelo Datafolha.

TEMA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo na modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema As Utopias: Indispensáveis, inúteis ou nocivas? Apresente proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

UTOPIA (de ou-topia, lugar inexistente ou, segundo outra leitura, de eu-topia, lugar feliz). Thomas More deu esse nome a uma espécie de romance filosófico (1516), no qual relatava as condições de vida em uma ilha imaginária denominada Utopia: nela, teriam sido abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa, entre outros fatores capazes de gerar desarmonia social. Depois disso, esse termo passou a designar não só qualquer texto semelhante, tanto anterior como posterior (como a República de Platão ou a Cidade do Sol de Campanella), mas também qualquer ideal político, social ou religioso que projete uma nova sociedade, feliz e harmônica, diversa da existente. Em sentido negativo, o termo passou também a ser usado para designar projeto de natureza irrealizável, quimera, fantasia.
(Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia. Adaptado.)

TEXTO II

A utopia nos distancia da realidade presente, ela nos torna capazes de não mais perceber essa realidade como natural, obrigatória e inescapável. Porém, mais importante ainda, a utopia nos propõe novas realidades possíveis. Ela é a expressão de todas as potencialidades de um grupo que se encontram recalcadas pela ordem vigente.
(Paul Ricoeur. Adaptado.)

TEXTO III

A desaparição da utopia ocasiona um estado de coisas estático, em que o próprio homem se transforma em coisa. Iríamos, então, nos defrontar com o maior paradoxo imaginável: o do homem que, tendo alcançado o mais alto grau de domínio racional da existência, se vê deixado sem nenhum ideal, tornando-se um mero produto de impulsos. O homem iria perder, com o abandono das utopias, a vontade de construir a história e, também, a capacidade de compreendê-la.
(Karl Mannheim. Adaptado.)

TEXTO IV

Acredito que se pode viver sem utopias. Acho até que é melhor, porque as utopias são ao mesmo tempo ineficazes e perigosas. Ineficazes quando permanecem como sonhos; perigosas quando se quer realizá-las.
(André Comte Sponville. Adaptado.)

TEXTO V

Cidade prevista
Irmãos, cantai esse mundo que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
Carlos Drummond de Andrade

TEXTO VI

A utopia não é apenas um gentil projeto difícil de se realizar, como quer uma definição simplista. Mas se nós tomarmos a palavra a sério, na sua verdadeira definição, que é aquela dos grandes textos fundadores, em particular a Utopia de Thomas More, o denominador comum das utopias é seu desejo de construir aqui e agora uma sociedade perfeita, uma cidade ideal, criada sob medida para o novo homem e a seu serviço. Um paraíso terrestre que se traduzirá por uma reconciliação geral: reconciliação dos homens com a natureza e dos homens entre si. Portanto, a utopia é a desaparição das diferenças, do conflito e do acaso: é, assim, um mundo todo fluido – o que supõe um controle total das coisas, dos seres, da natureza e da história. Desse modo, a utopia, quando se quer realizá-la, torna-se necessariamente totalitária, mortal e até genocida. No fundo, só a utopia pode suscitar esses horrores, porque apenas um empreendimento que tem por objetivo a perfeição absoluta, o acesso do homem a um estado superior quase divino, poderia se permitir o emprego de meios tão terríveis para alcançar seus fins. Para a utopia, trata-se de produzir a unidade pela violência, em nome de um ideal tão superior que justifica os piores abusos e o esquecimento da moral reconhecida.

TEMA DE REDAÇÃO

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo na modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema: O aumento da depressão entre os jovens no Brasil. Apresente proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

TEXTO I

Depressão é uma doença crônica, recorrente, muitas vezes com alta concentração de casos na mesma família, que ocorre não só em adultos, mas também em crianças e adolescentes. O que caracteriza os quadros depressivos nessas faixas etárias é o estado de espírito persistentemente irritado, tristonho ou atormentado que compromete as relações familiares, as amizades e a performance escolar.(…)
Em pelo menos 20% dos pacientes com depressão instalada na infância ou adolescência, existe o risco de surgirem distúrbios bipolares, nos quais fases de depressão se alternam com outras de mania, caracterizadas por euforia, agitação psicomotora, diminuição da necessidade de sono, idéias de grandeza e comportamentos de risco.
Antes da puberdade, o risco de apresentar depressão é o mesmo para meninos ou meninas. Mais tarde, ele se torna duas vezes maior no sexo feminino. A prevalência da enfermidade é alta: depressão está presente em 1% das crianças e em 5% dos adolescentes.

TEXTO III

depressão
Disponível em http://www.appp.com.br/blog/depressao-mentes-cada-vez-mais-doentes/1173/ (Acesso em: 24 jul. 2015)

TEXTO IV

Se, durante o século XIX e começo do XX, a histeria era a forma mais evidente de sofrimento, no século XXI esse espaço foi tomado pela depressão. Expressa na ausência de vontade e de projetos futuros, não é exagero chamá-la de epidemia. Em 2000, um relatório da Organização Mundial da Saúde já previa que 15% da força de trabalho mundial abandonaria seus postos por motivos relacionados à doença. No Brasil, o número de quadros depressivos cresceu impressionantes 705% em 16 anos. O problema atinge principalmente a juventude.

UMA LEITURA


TEXTO: MEU IDEAL SERIA ESCREVER... 
                            Rubem Braga

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário ((autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.”
E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.


INTERPRETAÇÃO DO TEXTO

01) Por que o autor deseja escrever uma história engraçada?
Para tornar as pessoas mais felizes, principalmente uma moça triste e doente que mora numa casa cinzenta.
02) Por que ele diz que a moça tem uma casa cinzenta, e não verde, azul ou amarela?
Porque a cor cinza lembra tristeza.
03) Ao descrever um raio de sol, o autor lhe atribui características que, de certa forma, se opõem às da moça. Cite algumas dessas características opostas.
Raio de sol: louro, quente, vivo;
Moça: enlutada(sombria), triste, doente
04) Como você interpretaria a oração “que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria”?
Que todos se tornassem mais alegres e humanos.
05) O autor sonha em tornar mais felizes e sensíveis apenas as pessoas de seu país? Justifique.
Não. Ele imagina sua história espalhada pelo mundo e fosse contada de mil maneiras por pessoas de várias nacionalidades.
06) Relacione as colunas conforme as reações das pessoas diante da história:
(a) moça triste ( d ) libertaria os detentos, dizendo-lhes para se comportarem, pois não gostava de
prender ninguém
(b) amigas da moça triste (c ) sentir-se-ia tão feliz que se lembraria do alegre tempo de namoro
(c) casal mal-humorado (b ) ficariam espantadas com a alegria repentina da moça
(d) comissário do distrito (e ) concluiria que teria valido a pena viver tanto, só para ouvir uma história tão
engraçada
(e) sábio chinês (a ) ficaria feliz e contaria a história para a cozinheira e as amigas

07) Por que o autor não contaria aos outros que havia inventado a história engraçada para alegrar a moça triste e doente? Copie a alternativa correta:
(a) porque, na verdade, a moça triste não existia
(b) por que ele mesmo não achava a história engraçada
(c) por modéstia e humildade
(d) porque não acreditariam que ele fosse capaz de inventar aquela história

08) Afinal, que história Rubem Braga inventou para alegrar e comover tantas pessoas?
Na crônica, o autor não contou a história engraçada, ficou apenas no desejo, na aspiraçao.
09) Na sua opinião, o que mais sensibiliza as pessoas: histórias engraçadas ou dramáticas? Justifique.
    Resposta Pessoal.

APOSTO E VOCATIVO


APOSTO E VOCATIVO

1 – (UNAERP) – Na oração: “Pássaro e lesma, o homem oscila entre o desejo de voar e o desejo de arrastar”, Gustavo Corção empregou a vírgula.
a)     Por tratar-se de antítese.
b)    Para indicar a elipse do verbo.
c)     Para separar o vocativo.

d)    Para separar uma oração adjetiva de valor restritivo.
e)     Para separar o aposto.

2 – (FEBASP) – No exemplo de período simples: Santos, cidade paulista, é um importante porto, as vírgulas estão separando:
a)     O aposto.
b)    O vocativo.
c)     A elipse do verbo.
d)    Termos coordenados.

3 – Coloque (A) para aposto e (V) para vocativo.
a)     A ) Este escritor, como romancista, nunca foi superado.
b)    A ) Mestres de todas as horas, os livros nos ensinam e divertem.
c)     V ) Dize, meu filho, quem te fez chorar?
d)    A ) Jerônimo, nosso vizinho, montou uma oficina.
e)     V ) Ó Vitória, por que não varre esta casa direito?
f)      V ) Essa moçarada é teimosa, seu doutor!

4 – Indique a função sintática dos termos destacados. Trago-te flores, restos arrancados da terra, que nos viu passar unidos e ora mortos nos deixa e separados.
a)     Sujeito.
b)    Objeto indireto.
c)     Objeto direto.
d)    Vocativo.
e)     Aposto.

5 – Assinale a alternativa sem aposto:
a)     O Dr. Aquiles, médico, é homem de estatura meã.
b)    Ah! eu lhe agradeço muito.
c)     Não os detêm ou amedrontam barreiras e contratempos:Chuvassecasfrios.

6 – (FEFASP) – Em que alternativa não existe aposto?
a)     Homens, animais e árvores, tudo é terra e da terra.
b)    A cidade do Rio comove aos mais duros de sentimentos.
c)     Antão só pensava na linda Thereza, Filha de Theodoro.
d)    Aves brancas e delicadas enfeitavam a beira da lagoa.

7– (UFMG) – A propósito do trecho que segue aponte a respostacorreta.
     Minha bela Marília, tudo passa/ A sorte deste mundo é mal segura/ Se vem depois dos males a ventura/ Vem depois dos prazeres e desgraça/ Estão os mesmos deuses/ Sujeitos ao poder do ímpio fado:/ Apolo á fugiu do céu brilhante/ já foi pastor de gado. (T. A. Gonzaga).
Minha bela Marília é:
a)     Vocativo.
b)    Sujeito.
c)     Aposto.
d)    Adjunto adnominal.

8– Em que alternativa as vírgulas separam um aposto?
      a) Filho meu, onde estás?
      b) A vida, respondeu ele, é uma loteria.
      c) Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém... (J. Alencar).
      d) Tristeza, angústia, melancolia eram o seu pão de cada dia.

9 – (UNIP) – Em: Abaixe a cabeça, leitor, faça todos os gestos de incredulidade. (Machado de Assis), o tempo leitor é ____________ e os verbos são ___________.
a)     Vocativo – intransitivos.
b)    Aposto – intransitivo.
c)     Vocativo – transitivos diretos.
d)    Aposto – transitivos diretos.
e)     Sujeito simples – transitivos diretos.

10– Assinale a alternativa que contenha vocativo.
      a) Choraram amargamente o seu destino.
      b) Nós, os verdadeiros patriotas...
      c) Eu vou!
      d) Os doces comi, as frutas e algo mais.
      e) Beijo-vos as mãos, senhor rei.